Freud (1919) já abria caminho para que a psicanálise se espraiasse para além do consultório particular e que o tratamento psicanalítico, longo e caro, pudesse sofrer variação de maneira a atender necessidades de um maior número de pessoas, segundo ele próprio “para as amplas camadas populares, que tanto sofrem com as neuroses”. Em instituições públicas ou privadas, Freud previu um atendimento gratuito realizado por profissionais com formação psicanalítica. 

Em 1920, com a abertura do Instituto Psicanalítico de Berlin, Max Eitingon, ao mesmo tempo em que instituiu regras básicas para a formação analítica (análise pessoal, supervisão e estudo teórico) abriu a possibilidade de atendimento gratuitos ou com custos variáveis de acordo com as possibilidades dos pacientes (Roudinesco, 1998).

Em 1973, Hélio Pellegrino e Anna Katrin Kemper fundaram a Clínica Social de Psicanálise, uma iniciativa única no sentido de enfrentar a elitização da psicanálise; trabalho que Michel Foucault considerou uma das experiências antropológicas mais importantes do século vinte (Carvalho, 2012). Hélio idealizou o “banco de horas”, em que cada profissional ligado ao projeto depositaria duas horas de atendimento por semana. Os clientes pagavam quantias simbólicas pelos serviços – oferecia-se terapia de grupo para adultos e adolescentes e ludoterapias para crianças, além de orientação para pais. Havia grupo de estudo para os profissionais interessados pela questão social e política na psicanálise. 

Ainda em 1973, a hegemonia da Sociedade Psicanalítica do Rio de Janeiro era total, e, silenciosamente, esta buscou eliminar o trabalho da Clínica Social. Pois, na Clínica Social buscavam-se profissionais identificados com o projeto, independentemente de sua formação. E as Sociedades Psicanalíticas se outorgam o direito único de autorizar ou não um profissional como sendo psicanalista. Não conseguiram destruir a Clínica Social nem os seus frutos (Chnaiderman, 1989).

Em 1974, a Sociedade Psicanalítica do Rio de Janeiro – da qual Hélio fazia questão de permanecer como membro e exercer, de dentro da instituição, a liberdade que ele achava compatível com a profissão – começa a pressionar para que o grupo se transforme em “Clinica Social de Psicoterapia”, preocupada que estava com o notório envolvimento de seus membros com grupos de esquerda e na luta com a ditadura. “Dona Catarina” (Anna Kemper) bateu o pé e os psicanalistas continuaram a ser chamados do que realmente eram: psicanalistas (Pires, 1998).     

Ainda, muitos dispositivos sociais e institucionais, das mais variadas naturezas, sempre foram sustentados pelos psicanalistas interessados na democratização da psicanálise e no direito universal à saúde. A Policlínica Psicanalítica de Berlin de Abraham, os grupos terapêuticos e políticos sexpol de Reich, a ação continuada do analista, renovadora da própria psicanálise, no hospital público, de Winnicott, os grupos psicanalíticos de trabalho e operativos, de Bion, Pichon Rivière e Bleger, na Inglaterra e na Argentina, os grupos psicanalíticos e as instituições para trabalho com psicóticos, de Didier Anzieu, René Kaës, Felix Guattari e Maud Mannoni, os grupos Balint em hospitais, as clínicas psico-sociais dos psicanalistas cariocas brasileiros, e o próprio impacto da psicanálise e dos psicanalistas nos Capes de Saúde Mental, o resultado maduro da política antimanicomial brasileira, são apenas alguns entre tantos trabalhos desta natureza que atravessam a história da psicanálise e que hoje existem em Universidades, Institutos de Formação e Instituições (Ab’Sáber, 2016).

Assim, justifica se historicamente a formação de uma organização de profissionais e estudantes de psicanálise preocupados – para além de suas formações pessoais –  com as questões sociais importantes que tocam a psicanálise. Afinal, como a psicanálise foi se tornando uma modalidade elitista de tratamento, mesmo depois da experiência fundadora do Instituto de Berlin? Como a psicanálise se distanciou que questões políticas e sociais do nosso tempo buscando suposta neutralidade? Como a psicanálise, por motivos teóricos questionáveis, justifica preços altíssimos do tratamento?       

CLINICA SOCIAL É: 

Uma organização formada por profissionais e estudantes da psicanálise preocupados – para além de suas formações pessoais –  com questões sociais importantes que tocam a psicanálise. 

OBJETIVOS DA CLÍNICA SOCIAL 

Temos como objetivo geral, a construção de um espaço para a formação permanente dos psicanalistas, por meio de atividades clínicas e teóricas sem, no entanto, privilegiar qualquer escola de pensamento em específico. 

Assim, oferecemos atendimento psicanalítico, considerando a realidade social brasileira, ajustando assim os custos do tratamento às possibilidades de cada pessoa. oferecemos o nosso trabalho em psicanálise sendo eles: atendimento clínico, supervisão, grupos de estudo/leitura e eventos – ao público geral, estudantes e profissionais. 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

AB’SÁBER, Tales. Psicanálise, espaço público e vida popular. Julho de 2016. Disponível em < http://vilaitororo.org.br/em-obras/clinica-publica-de-psicanalise/psicanalise-espacopublico-e-vidapopular/>. Acessado em: 8 mai 2017

CARVALHO, Andréa et. al. (2012). Angústia, generosidade com a vida: entrevista com Heitor O’Dwyer de Macedo, Revista Percurso, v. 48.

CHNAIDERMAN, Miriam (1989). Homenagem a Helio Pellegrino, Revista Percurso, n. 2.

COIMBRA, CECÍLIA M. B. (1995). Guardiães da ordem: uma viagem pelas práticas psi no Brasil do “milagre”. Rio de Janeiro: Oficina do Autor, 387p., p.112-115.

FREUD, Sigmund. Caminhos da terapia psicanalítica, Obras Completas, vol. 14, Companhia das Letras, 1919.

PIRES, Paulo Roberto (1998). Hélio Pellegrino – A paixão indignada. Relume-Dumará, p.84-86.

ROUDINESCO, Elisabeth e PLON, Michel. Dicionário de psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.